Brasil: A Economia como ela é…

Publicada en Publicada en Columna de opinión, Edición #3

Perequê Pinto *

Thomas Piketty chocou o mundo recentemente, ao mostrar que a desigualdade social vem se ampliando por todos os países. Traz dados do dito mundo industrializado, de países emergentes, de outros em vias de desenvolvimento. Para quem convive com o problema, o alerta chamou atenção, sobretudo pela demora em ter sido cientificamente divulgado.

Ulrich Beck, em suas teses, expõe os riscos que o mundo corre pelo fenômeno da “brasilianização”: baixos salários, reajuste de condições laborais, perda de direitos trabalhistas. É a corda rompendo do lado mais fraco: classe operária. A sociedade, assim, caracterizada pelo risco de fragmentação, de esgarçamento, de individualização. Para quem depende de serviços públicos, sente – há tempos – que o tecido social se desintegra em progressão geométrica, independente da origem, brasileira ou não.

Dois economistas que desvendam o Brasil a distância. Seriam fortuitos os estudos? Alvejaram o gigante sul-americano intencionalmente? Pouco importa, o diagnóstico aplica-se; mas remédio econômico não traz melhora sincrônicas, se não houver a análise diacrônica correspondente: e o Brasil esforça-se por repetir-se – sincrônica e diacronicamente.

O eterno país do futuro zweiguiano, metáfora exposta de todo o subcontinente, apostou – uma vez mais – no modelo exportador de matéria-prima (commodity – no eufemismo da moda). O modelo que gera dependência, bacilo-causador da doença holandesa: definida, grosso modo, pelo crescimento do setor exportador de recursos naturais em detrimento do setor industrial, do potencial pós-industrial. Eis a situação latino-americana. Eis o Brasil, retrospectivamente dependente, prospectivamente refém de si mesmo.

No ciclo econômico favorável – no jargão: viés de alta -, o Estado tentou organizar as forças produtivas: nova partilha de campos petrolíferos, reajuste artificial de juros bancários, financiamento de grupos agroexportadores. O Estado reinventando a roda; desorganizando o que os agentes econômicos podem fazer por si sós. O Estado não atou onde mais se esperava, ou seja, na qualidade dos serviços públicos prestados. Isso feito, poder-se-ia aventar entrar em outras áreas – desde que com recursos e capacidade gerencial: investir onde não houvesse condições de o empreendedor fazê-lo por si; incentivar novas áreas, novas estratégias, novos nichos que levassem em consideração, não apenas fatores econômicos, mas também perspectivas socioambientais, responsabilidades culturais, assertividades étnicas.

Coube ao Estado pôr peso demasiado na balança errada: petróleo, latifúndio, remuneração rentista. Setores como turismo, biotecnologia e geração de energia limpa são apenas alguns dos potenciais a serem desenvolvidos pela economia latino-americana, especialmente a brasileira. Outros surgem a cada dia, em cada localidade. Bastam olhos de ver. E não é preciso ir longe. Mas não; repete-se uma ladainha secular; um mercantilismo insistente de quem tem como futuro o amanhã do minuto seguinte. O sonho operístico resume-se ao eterno réquiem tocado nos trópicos.

O Estado acaba, assim, por financiar os seus amigos, os mesmos de sempre. O extrato mercantilista – vulgo elites – torna-se aliado dos governos, sejam eles de direita, de esquerda, de centro; mas sempre fora da realidade. A Europa, a Ásia, a Oceania mergulham na sociedade do conhecimento. A América do Norte lidera os rankings de melhores universidades, de maiores empresas, de redes de tecnologia. Ao Brasil: apostar todas as fichas na monocultura da soja, na pecuária amazônica, nas termoelétricas a óleo mineral; numa reedição do ciclo do pau-brasil, da cana-de-açúcar, do ouro, do café.

Piketty, Beck, não importa quantos mais alertarão; Nelson Rodrigues foi o que melhor captou a economia brasileira, quiçá, latino-americana; afinal, “subdesenvolvimento não se improvisa. É obra de séculos.”

*Perequê Pinto é pintor e vive na Áustria. Nasceu em Brasília, quando a cidade comemorava apenas 10 anos. Ele estudou economia, paralelamente dedicou-se à pintura. Freqüentou ateliês em Brasília, Rio de Janeiro, Paris e na Austria-Baixa aonde vive ainda hoje.

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2 comentarios en “Brasil: A Economia como ela é…

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